Era uma vez uma menina de 11 anos que andava nas ruas de Jardim Aeroporto, bairro na Zona Sul de São Paulo. De repente, um lobo mau se aproxima da garotinha e diz: “Que belo corpo você tem”. Assustada, a menina sai correndo e chorando na rua até ser parada por uma senhorinha. O que foi, pequena? Ainda com voz de choro, a menina conta o acontecido. A senhora ralha: Você deveria estar feliz. Quando chegar na minha idade, ninguém vai te elogiar mais. Envergonhada de si mesma, a garotinha engole o choro e volta para casa confusa.

Durante 16 anos, Juliana de Faria guardou essa história em algum canto da memória sem nunca contar para ninguém. Um dia, uma amiga postou no Facebook uma reclamação de um assédio que sofrera no metrô. Aquele post indignado trouxe à tona várias lembranças de assédio sexual na rua e inspirou Juliana a criar a campanha Chega de Fiu Fiu, contra o assédio sexual. Em poucos minutos o post da amiga de Juliana tinha centenas de curtidas e compartilhamentos. Várias histórias como a de Juliana atormentavam outras mulheres, era preciso alguém começar a falar.

“Eu sempre fui feminista. Eu talvez não me reconhecesse como”.

Juliana se formou em jornalismo, na Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo em 2006. Escolheu a profissão porque gostava de escrever e se comunicar. No segundo semestre até o fim da faculdade estagiou no extinto Jornal da Tarde, “cobrindo de buraco na rua a corpo boiando no rio”. Depois de formada trabalhou na Veja São Paulo, fazendo matérias sobre cidade, moda e gastronomia. Passou um ano na Espanha, estudando direitos humanos na China. “Foi uma fase”.

A jornalista voltou para o Brasil e pouco tempo depois viajou para Londres junto com o marido. “Eu queria aproveitar para estudar e pensei em algo inusitado, que eu não faria no Brasil: aí fiz um curso de Moda e me apaixonei”. Na volta para o Brasil, trabalhou no extinto site de moda da Abril, Moda Spot, Elle (onde emplacou a primeira capa de uma revista de moda no Brasil com uma mulher trans, Lea T) e Harper’s Bazaar. Depois foi trabalhar em Berlim para um start-up de e-commerce falando sobre moda.

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“Feminismo é uma palavra carregada de estereótipos negativos” (Foto: Gabriela Gauziski)

 

“Feminismo é uma palavra carregada de estereótipos negativos. Eu rejeitava o feminismo porque eu achava que o feminismo me rejeitava. Eu estudei moda, casei e tinha um estereótipo que feminista não casa, não gosta de cozinhar”

Em abril de 2013, quando criou o blog Think Olga, Juliana queria falar com todas as mulheres. Depois da experiência como jornalista de moda, ela cansou de falar sempre para as mesmas mulheres, “brancas, cabelo liso, alto poder de consumo”. “Eu queria falar de outros assuntos e simplesmente não tinha espaço. E eu também comecei a perceber que nem eu me identificava com meus textos. ‘Use 70 esmaltes diferentes’. Imagina, eu nem uso esmalte!”

Em dois anos a Olga virou gente grande. O blog passou a ser apenas um dos braços e Juliana começou a tocar outros projetos com colaboradoras. “Se eu queria fazer um espaço que falasse com varias mulheres não podia ser só meu, porque claro, eu sou só uma mulher e eu também vou representar de uma faixa pequena de mulheres”. “Aí eu comecei a me aproximar de outras mulheres, de grupo feministas e foi a generosidade dessas mulheres é que me levou para o debate feminista e foi quando eu comecei a usar a carteirinha feminista”, brinca.

O primeiro projeto da Olga, foi o Chega de Fiu Fiu. O post da amiga de Juliana inspirou o tema e gerou um post no Think Olga. A repercussão do texto, virou uma enquete que entrevistou mais de 7 mil mulheres e 97% delas afirmaram ter sofrido violência sexual. A enquete viralizou, Juliana foi deixando de ser jornalista para virar personagem de várias matérias. O próximo passo da campanha foi um mapa colaborativo com vários relatos de violência de gênero pelo país. Depois vieram eventos, o e-book Meu corpo não é seu, uma cartilha para a Defensoria Pública de São Paulo e um documentário em fase de produção.

“A campanha Chega de Fiu Fiu foi a ação mais egoísta que eu já fiz”, brinca Juliana. “Eu comecei a lutar contra algo que me incomodava desde sempre. A campanha foi uma forma de dar um grito, de falar, vamos tratar isso como é: uma violência”. “Quando a gente começou a campanha, eu percebi que eu andava olhando pro chão. Ouvir os relatos, ler sobre o assunto, conversar com outras mulheres me empoderou. Hoje eu ando na rua e se tiver um grupo de caras e ando de cabeça erguida encarando”. Com um ano em meio, o projeto recebeu o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU) e está sendo replicado em iniciativas municipais. Mulheres continuam sendo assediadas, mas demos um primeiro passo. Fizemos a sociedade olhar o assédio como um tipo de violência.”

Se por um lado a Chega de Fiu Fiu trouxe a tona o debate adormecido do assédio sexual, também veio uma enxurrada de críticas e insultos. “Três dias depois do lançamento da campanha eu tinha mais de mil e-mails com ofensas e ameaças de estupro. Eu não sabia como reagir”. Quando a ficha caiu, Juliana entendeu que o assédio virtual é um desdobramento do assédio sexual nas ruas: ambos partem de uma ideia que a mulher não pode estar nos espaços públicos.

“Como a internet é um espaço desumanizado, todo mundo é alvo de insultos. Mas enquanto os homens são chamados de burros, a agressão contra a mulher é mais sexualizada, ela é ameaçada de estupro”. Juliana lembra que o estupro é uma realidade muito próxima, o que torna o assédio virtual ainda mais pesado. Segundo a ONU, uma em cada cinco mulheres sofrerá pelo menos um estupro, ou tentativa de estupro na vida.

Em fevereiro deste ano nasceu a irmã da Olga, Eva, uma consultoria sobre gênero para empresas. “A Olga sempre foi para conversar com mulheres para promover mudanças na sociedade, uma pressão que vem de fora. A Eva é de dentro pra fora. Nem todo mundo acredita nisso, a gente acredita que é possível achar um tom, uma narrativa para clientes que falam com mulheres para que eles parem de reproduzir machismo, violência contra a mulher”. A Olga deve virar uma organização não governamental (ONG) até o fim do ano. A Eva vai permitir “pagar as contas”. “Nesses últimos dois anos eu vendi o almoço para pagar a janta e a Eva será o espaço de fazer vir dinheiro para que feche o ciclo”, explica Juliana.

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“Eu acho que precisamos de vários feminismos” (Foto: Gabriela Gauziski)

 

Apesar de afastada do jornalismo, Juliana continua dando pitacos no campo da antiga profissão. Após se questionar sobre a pouca presença de mulheres em reportagens, Juliana criou um banco de fontes com mulheres. Ao ver Claudia Silva Ferreira ser chamada de “A mulher arrastada”, Juliana reuniu várias ilustrações no projeto 100 vezes Claudia, uma tentativa de devolver a humanidade duplamente tirada de Claudia, pelos policiais e pela imprensa.

A figura forte da mãe foi uma das primeiras inspirações feministas de Juliana. “Minha mãe começou a trabalhar com 13 anos e fez duas faculdades, sempre foi independente”. O pai de Juliana também sempre incentivou a filha. “Ele só demorou um pouco para entender o que eu fazia no Think Olga”, brinca. “Mas acho que isso acontece com várias profissões mais novas ligadas a internet, nunca tem um nome simples tipo gerente”. Juliana tem um irmão, de 28 anos, dois anos mais novo do que ela. “Somos diferentes. Ele é advogado, assim mais sério. Mas nos damos bem, ele sempre me oferece apoio para a Olga”.

Em 2014, Juliana foi eleita uma das 8 mulheres inspiradoras do mundo pela Clinton Foundation e pela revista Cosmopolitan e uma das 24 pessoas mais influentes da internet brasileira em 2014, pelo YouPix. “Fiquei muito feliz. E fiquei feliz também pelo carinho que recebi de várias feministas que eu admiro e que vieram me parabenizar”.

Apesar do sucesso da Olga, Juliana já foi chamada de “feminismo baunilha, um feminismo bonitinho, que não bate”. “Eu bato, só que do meu jeito de bater”, brinca. “Eu acho que precisamos de vários feminismos. Eu sempre fui pro colorido, pro humor, para a explicação longa. Esse é o meu jeito”.

 

Texto por: Ana Rita Cunha
Jornalista, modelo, atriz e cantora. Mentira, só jornalista mesmo. Feminista, botafoguense e tem Tumblr de poesia.

Fotos por: Gabriela Gauziski
Fazedora de imagem. Apaixonada por música, papel e gente. Portfolio aqui.

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